Noruega impõe quase proibição total de IA no ensino fundamental

O governo da Noruega anunciou que, a partir do próximo ano letivo, o uso de ferramentas de Inteligência Artificial generativa será proibido para estudantes de 6 a 13 anos e terá restrições para alunos mais velhos. A medida busca fortalecer habilidades fundamentais, como leitura, escrita e matemática, além de evitar que a tecnologia substitua processos essenciais de aprendizagem.

A decisão recoloca em pauta um debate que também interessa às escolas brasileiras: qual deve ser o papel da Inteligência Artificial na educação e em que momento ela pode contribuir, sem comprometer o desenvolvimento dos estudantes?

IA deve complementar o aprendizado, não substituí-lo

Segundo o governo norueguês, crianças em fase de alfabetização e desenvolvimento cognitivo precisam consolidar competências básicas antes de recorrer a ferramentas capazes de produzir respostas prontas.

A partir das novas diretrizes, estudantes do ensino fundamental, entre 6 e 13 anos, não poderão utilizar Inteligência Artificial generativa nas atividades escolares. Já os alunos de 14 a 16 anos poderão recorrer à tecnologia apenas sob orientação dos professores. No ensino médio, o objetivo passa a ser ensinar o uso responsável da IA como preparação para a universidade e para o mercado de trabalho.

Especialistas alertam para riscos do uso precoce

Para especialistas em tecnologia e educação, a Inteligência Artificial representa uma ferramenta importante, mas seu uso exige maturidade.

O especialista em tecnologia Arthur Igreja compara o aprendizado da IA ao processo de aprender a dirigir: é uma habilidade relevante, mas que precisa ser desenvolvida no momento adequado.

Segundo ele, pesquisas indicam que o uso excessivo dessas ferramentas pode reduzir o esforço cognitivo necessário para desenvolver habilidades como interpretação, raciocínio lógico, escrita e resolução de problemas. Entre crianças e adolescentes em formação, esse efeito pode ser ainda mais significativo.

País amplia medidas para reduzir dependência das telas

A restrição ao uso da Inteligência Artificial faz parte de uma política mais ampla adotada pela Noruega para enfrentar os impactos do excesso de tecnologia na educação.

Em 2024, o país proibiu o uso de celulares nas escolas e ampliou a autonomia dos professores para manter a disciplina em sala de aula. Agora, o governo também pretende investir novamente em livros impressos, revertendo parte da substituição por tablets iniciada nos últimos anos.

Outra proposta em discussão prevê restringir o acesso às redes sociais para menores de 16 anos.

Debate também interessa às escolas brasileiras

A expansão das ferramentas de Inteligência Artificial tem transformado rapidamente a rotina de estudantes e professores no Brasil. Ao mesmo tempo em que oferecem novas possibilidades para pesquisa, personalização do ensino e apoio ao planejamento pedagógico, essas tecnologias também levantam preocupações sobre dependência, pensamento crítico e desenvolvimento da autonomia intelectual.

Para educadores, o desafio não está em proibir ou liberar indiscriminadamente a IA, mas em estabelecer critérios claros para seu uso pedagógico, respeitando a etapa de desenvolvimento dos estudantes e preservando o protagonismo do processo de aprendizagem.

O desafio é formar usuários críticos da tecnologia

A experiência da Noruega reforça uma discussão cada vez mais presente nos sistemas educacionais: a Inteligência Artificial pode ser uma aliada da educação, desde que utilizada de forma consciente e adequada à idade dos alunos.

Mais do que ensinar a utilizar novas ferramentas, especialistas defendem que a escola continue priorizando competências fundamentais, como leitura, escrita, argumentação, criatividade e pensamento crítico. Afinal, essas habilidades serão essenciais para que as futuras gerações utilizem a tecnologia de forma ética, responsável e verdadeiramente transformadora.

Fonte: Reuters e Record News.