Eleição: o que os candidatos propõem para a educação

Planos de governo colocam aprendizagem, alfabetização, tempo integral e formação docente entre as prioridades, mas especialistas apontam diferenças e lacunas nas propostas

A melhoria da aprendizagem aparece como um dos principais desafios da educação brasileira nos planos de governo dos cinco candidatos à Presidência mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto analisadas pelo Nexo. As propostas, porém, apresentam diferenças importantes sobre como enfrentar problemas como alfabetização, evasão, indisciplina, formação de professores e desigualdades educacionais.

Entre as medidas apresentadas estão a ampliação do ensino em tempo integral, mudanças nos métodos de alfabetização, programas de permanência escolar, expansão da educação técnica, novas políticas para formação docente e, em alguns casos, propostas como escolas cívico-militares, vouchers educacionais e homeschooling.

Lula: expansão do ensino integral

O plano de Luiz Inácio Lula da Silva coloca a educação básica como prioridade e prevê a ampliação do ensino em tempo integral. O governo federal registra 1,8 milhão de novas matrículas nessa modalidade entre 2023 e 2025.

Entre as principais propostas estão:

  • ampliar a educação em tempo integral;
  • alfabetizar 80% das crianças na idade adequada;
  • expandir o programa Pé-de-Meia;
  • manter políticas de valorização dos professores;
  • ampliar institutos federais e criar novas universidades.

Para o professor Thiago Esteves, da área de educação, o programa mantém uma perspectiva de continuidade, mas apresenta poucas novidades. Ivan Gontijo, gerente de políticas educacionais do Todos Pela Educação, também considera o plano fortemente baseado nas ações já desenvolvidas pelo Ministério da Educação.

Uma das principais críticas de Gontijo é a ausência de uma proposta mais estruturada para a formação inicial de professores, que ele considera fundamental para melhorar a educação básica.

Flávio Bolsonaro: alfabetização e disciplina

Flávio Bolsonaro apresenta como objetivo uma escola que “ensina, e não doutrina”, com ênfase na alfabetização e na disciplina.

O plano propõe o uso prioritário do método fônico, financiamento de escolas vinculado a resultados, formação continuada de professores baseada em evidências, ampliação das escolas cívico-militares e criação de vouchers para estudantes que não encontrem vagas na rede pública.

Thiago Esteves avalia que o método fônico é apresentado como uma solução para os problemas de alfabetização, enquanto outras propostas reproduzem medidas já presentes no debate educacional.

Já Ivan Gontijo questiona a expansão das escolas cívico-militares. Para ele, embora indisciplina e violência sejam problemas reais, militares não possuem necessariamente formação pedagógica para lidar com essas situações.

O modelo de vouchers também é criticado por Esteves, que aponta o risco de criação de um mercado privado de baixo custo e baixa qualidade, enfraquecendo a educação pública.

Renan Santos: mais autoridade e mudanças no ensino superior

O plano de Renan Santos coloca aprendizagem e disciplina escolar no centro das propostas. O documento cita o desempenho brasileiro no Pisa, especialmente em matemática: os estudantes brasileiros obtiveram 379 pontos, contra 472 da média da OCDE.

Entre as propostas estão o método fônico, um código nacional de conduta com sanções para casos de indisciplina, o fim das cotas, mudanças no financiamento das universidades e expansão das escolas cívico-militares em regiões de alta criminalidade.

Para Gontijo, o diagnóstico sobre a relação entre indisciplina e aprendizagem é pertinente, mas as medidas propostas não enfrentariam as causas do problema. Ele também critica a ausência de propostas para creches e educação em tempo integral e a ideia de acabar com as cotas.

Esteves, por sua vez, considera preocupante a proposta de reduzir a autonomia universitária e concentrar investimentos em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Caiado: alfabetização, equidade e formação docente

Ronaldo Caiado define a aprendizagem como “prioridade nacional” e propõe medidas para enfrentar defasagens acumuladas ao longo da trajetória escolar.

O plano prevê um pacto nacional pela alfabetização e matemática, universalização da pré-escola, ampliação de creches, recomposição das aprendizagens, expansão do ensino integral e restrições a cursos de licenciatura considerados de baixa qualidade. Também propõe bolsas para estudantes com bom desempenho que optem pela carreira docente.

Ivan Gontijo considera a proposta de Caiado a mais completa e sistêmica entre as analisadas, por contemplar diferentes etapas da educação, da creche ao ensino médio.

O especialista, porém, observa uma diferença entre as propostas apresentadas e alguns resultados de Goiás, estado governado por Caiado. O estado possui 20% das matrículas em tempo integral, abaixo da média nacional de 25%, e 13% dos estudantes em cursos técnicos, contra 20% na média brasileira.

Zema: avaliação, BNCC e homeschooling

Romeu Zema defende mudanças na educação básica e maior liberdade para que as famílias escolham diferentes modelos educacionais.

Entre as propostas estão a ampliação de creches e pré-escolas, avaliação da educação infantil, atualização da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), mudanças no foco do Pé-de-Meia e regulamentação do homeschooling.

Gontijo considera positiva a ideia de avaliar a educação infantil, desde que o processo não reproduza o modelo tradicional de provas. Também vê potencial na reformulação da BNCC e na focalização do Pé-de-Meia.

A regulamentação do homeschooling, entretanto, é vista com ressalvas. Para o especialista, a prioridade da maioria das famílias é contar com uma escola de qualidade, em tempo integral e capaz de garantir aprendizagem e alimentação aos estudantes.

O professor Thiago Esteves também chama atenção para a situação dos profissionais da educação em Minas Gerais, estado governado por Zema, onde, segundo ele, 80% dos professores da rede pública são contratados temporariamente.

O desafio é transformar propostas em políticas

Apesar das diferenças entre os programas, os especialistas identificam um ponto comum: o Brasil avançou na ampliação do acesso à escola, mas ainda enfrenta dificuldades importantes na aprendizagem.

Para Ivan Gontijo, as propostas precisam estar acompanhadas de dados, planejamento e recursos que permitam sua implementação. “Propostas sistêmicas, baseadas em evidências” são fundamentais para enfrentar os problemas educacionais, afirma.

O debate também evidencia que melhorar os indicadores educacionais depende de políticas que vão além do desempenho dos estudantes. Alfabetização, formação e valorização dos professores, permanência escolar, infraestrutura, equidade e condições de trabalho precisam fazer parte de uma estratégia integrada.

Mais do que apresentar propostas para a educação, o desafio dos próximos governos será demonstrar como essas medidas serão financiadas, implementadas e avaliadas, garantindo que as promessas se transformem em resultados concretos para estudantes e profissionais da educação.

Fonte: Nexo Jornal