PND: 97% das contratações são temporárias

A Prova Nacional Docente (PND), conhecida como “Enem dos Professores”, foi criada com a proposta de qualificar a seleção de docentes e incentivar contratações mais estáveis nas redes públicas de ensino. No entanto, os primeiros resultados indicam um cenário que ainda está distante desse objetivo.

De acordo com um estudo do Movimento Profissão Docente, 97% das contratações realizadas com base na prova foram para cargos temporários. Apenas 3% dos profissionais selecionados conquistaram vagas efetivas. Ao todo, cerca de 16,9 mil professores foram contratados após a primeira edição da avaliação, sendo aproximadamente 16,4 mil em vínculos temporários e pouco mais de 500 em cargos permanentes.

Calendário da prova limita uso em concursos públicos

O levantamento analisou a adesão de 52 redes públicas de ensino à prova, incluindo três redes estaduais e dezenas de municípios. A avaliação, aplicada pela primeira vez em outubro do ano passado, contou com mais de 1 milhão de inscritos e integra uma política do Ministério da Educação voltada à melhoria da formação e do ingresso na carreira docente.

Quando foi anunciada, a PND foi apresentada como um instrumento capaz de estimular a ampliação de concursos públicos e reduzir a dependência de contratos temporários. Na prática, porém, o que se observa é a manutenção de um modelo já conhecido por muitos professores, marcado pela instabilidade e pela ausência de vínculos permanentes.

Um dos fatores apontados para esse resultado é o calendário da prova. A aplicação ocorreu no fim de outubro, com divulgação dos resultados apenas em dezembro, o que limitou o tempo disponível para que estados e municípios incorporassem a nota em concursos públicos. Como esses processos exigem planejamento, elaboração de editais e cumprimento de prazos legais, muitas redes acabaram utilizando a avaliação apenas em seleções mais rápidas, voltadas à contratação temporária.

Potencial da PND para redes menores

Apesar das limitações, o estudo aponta que a PND tem potencial para contribuir com a qualificação da seleção docente, especialmente em municípios menores. Em muitas dessas localidades, a realização de concursos públicos é pouco frequente, o que dificulta a renovação e a valorização do quadro de professores.

Dados indicam que mais da metade dos municípios que utilizaram a prova têm menos de 70 mil habitantes, o que reforça o papel da avaliação como ferramenta de apoio à gestão educacional. Além disso, há um histórico de longos intervalos entre concursos públicos, que podem ultrapassar sete anos nos municípios.

Desafio segue sendo a valorização da carreira docente

Para especialistas, a antecipação do cronograma pode ser um caminho para ampliar o uso da prova em concursos públicos e, consequentemente, favorecer o ingresso efetivo de professores. Isso permitiria às redes de ensino organizar melhor seus processos seletivos e alinhar a contratação ao início do ano letivo.

A realização anual da Prova Nacional Docente pode, ao longo do tempo, ajudar a mudar esse cenário, permitindo que as redes organizem processos seletivos mais frequentes e, potencialmente, mais qualificados.

Ainda assim, o desafio central permanece: transformar essa política em um instrumento efetivo de valorização da carreira docente, com ampliação das contratações estáveis e garantia de melhores condições de trabalho para os professores.

Para a categoria, o debate segue sendo fundamental. Mais do que ampliar formas de seleção, é preciso enfrentar a precarização dos vínculos e avançar na construção de uma política educacional que reconheça, na prática, a importância do professor para o país.