Pesquisadora propõe reinventar o ensino da matemática

Uma mudança na forma de ensinar matemática pode ser decisiva para melhorar a aprendizagem dos estudantes. Essa é a avaliação da pesquisadora Jo Boaler, da Universidade de Stanford (Estados Unidos), que defende um ensino mais conectado ao pensamento crítico, à criatividade e às situações do cotidiano, em vez da simples memorização de fórmulas e procedimentos.

Autora dos livros Mentalidades Matemáticas e Matematicando, Boaler afirma que muitos dos problemas enfrentados no ensino da disciplina decorrem de um modelo que prioriza a repetição mecânica de conteúdos, afastando os alunos da compreensão conceitual da matemática.

Ensino tradicional ainda limita o aprendizado

Para a pesquisadora, um dos maiores desafios é romper com a ideia de que algumas pessoas “nascem boas em matemática” enquanto outras não possuem essa capacidade. Segundo ela, esse mito, somado aos estereótipos sociais e ao excesso de memorização, contribui para o baixo desempenho e para a perda de interesse dos estudantes.

Boaler defende que a matemática seja apresentada como uma ferramenta para compreender o mundo, resolver problemas e desenvolver o raciocínio lógico, permitindo que os alunos investiguem, façam estimativas e expliquem seu próprio processo de pensamento.

Estimativas ajudam a desenvolver o raciocínio

Um dos conceitos apresentados pela pesquisadora é o chamado “número aproximado” (number ish), que incentiva os estudantes a fazer estimativas antes de realizar cálculos exatos.

Segundo Boaler, esse tipo de atividade fortalece o senso numérico e estimula a compreensão dos conceitos matemáticos, reduzindo a dependência da memorização de regras e algoritmos.

A proposta também favorece a participação em sala de aula, já que os alunos passam a compartilhar seus raciocínios e discutir diferentes estratégias para chegar às respostas.

Ciência de dados pode aproximar a matemática da realidade

Outra proposta defendida pela pesquisadora é ampliar o espaço da ciência de dados no currículo escolar.

Para ela, trabalhar com interpretação de dados, gráficos e estatísticas torna a matemática mais significativa, além de preparar os estudantes para analisar criticamente as informações que circulam na sociedade.

Esse tipo de aprendizagem também fortalece competências essenciais para o século XXI, como pensamento crítico, resolução de problemas e alfabetização midiática.

Baixo desempenho exige mudanças no ensino

Ao comentar os baixos índices de aprendizagem em matemática, Boaler afirma que a dificuldade não pode ser atribuída apenas aos estudantes.

Ela destaca que, frequentemente, alunos com dificuldades recebem exatamente o mesmo tipo de ensino que já havia fracassado anteriormente, reforçando ciclos de insegurança e desmotivação.

Pesquisas citadas pela autora mostram que estudantes com melhor desempenho não necessariamente sabem mais conteúdos, mas utilizam estratégias mais flexíveis e compreendem melhor os conceitos matemáticos.

Currículo pode priorizar conceitos essenciais

Na avaliação da pesquisadora, os currículos atuais são excessivamente extensos e dedicam tempo a conteúdos que hoje possuem pouca aplicação prática.

Ela defende que parte desse espaço seja utilizada para aprofundar grandes conceitos matemáticos, permitindo que os estudantes desenvolvam compreensão mais sólida e consigam aplicar o conhecimento em diferentes contextos.

Essa reorganização curricular já vem sendo discutida em alguns sistemas educacionais internacionais, com foco na aprendizagem significativa e não apenas na preparação para provas.

Formação dos professores também é fundamental

Jo Boaler destaca que muitos professores carregam experiências negativas com a matemática vividas durante sua própria formação, o que pode influenciar a maneira como ensinam a disciplina.

Por isso, ela defende investimentos em formação continuada que permitam aos educadores reconstruir sua relação com a matemática e adotar metodologias mais participativas, investigativas e colaborativas.

Segundo a pesquisadora, transformar a experiência dos professores é um passo importante para tornar a disciplina mais acessível, reduzir a ansiedade dos estudantes e promover uma aprendizagem mais inclusiva.