Crise na educação: o adoecimento mental de professores em SP

O esgotamento físico e mental de professores na Grande São Paulo atingiu patamares alarmantes, revelando uma crise estrutural que afeta educadores tanto na rede pública quanto na rede privada. Dados obtidos pelo Centro do Professorado Paulista (CPP) por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) junto à Diretoria de Perícias Médicas apontam que, entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, foram registrados quase 37 mil afastamentos de docentes por questões de saúde mental apenas na rede estadual, o que representa uma média de 58 profissionais afastados diariamente devido ao desgaste emocional.

Relatos colhidos por reportagens das Agências Mural e Pública.org em bairros periféricos e municípios da Região Metropolitana — como Cidade Tiradentes, Jardim São Luís, Embu das Artes e Itapecerica da Serra — escancaram uma rotina de trabalho insustentável. Os profissionais enfrentam jornadas diárias de 10 a 12 horas, baixos salários, infraestrutura precária e episódios frequentes de violência. Essa mesma realidade de desgaste e pressão psicológica também se estende à rede privada, onde docentes lidam com altas cargas de trabalho, exigências rigorosas e a submissão a pressões institucionais voltadas à satisfação de clientes e manutenção de matrículas.

Educadores no limite e os impactos do esgotamento

Histórias de professores com longas trajetórias na educação ilustram como a pressão institucional e as condições adversas provocam colapsos na saúde, cruzando as fronteiras entre as escolas públicas e particulares:

  • Sílvio Benedito, 60 anos, professor de educação física na zona sul de São Paulo com mais de 20 anos de carreira, foi diagnosticado em 2024 com ansiedade, depressão e sintomas associados à Síndrome de Burnout. Ele precisou se afastar por seis meses após ser intimidado por uma pessoa em situação de rua que ocupava a quadra da escola aberta nos fins de semana.
  • Talita da Silva Vitoriano Leal, 35 anos, docente há 14 anos em Itapecerica da Serra, afastou-se por 10 meses após perder a voz — desenvolvendo um pólipo nas cordas vocais — e enfrentar o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). Ao retornar, sofreu uma crise de pânico nos corredores escolares e precisou buscar a readaptação funcional para atividades administrativas.
  • Uma professora da rede particular na Vila Mariana, que preferiu não se identificar, relatou ter sido agredida fisicamente por uma aluna durante o expediente. Diante do episódio, enfrentou forte pressão da direção para abafar o caso por receio de insatisfação dos pais pagantes, acumulando estresse e turmas extras até entregar 15 atestados médicos e decidir pedir demissão para preservar sua saúde.
  • Angela Saraiva, 43 anos, professora em Embu das Artes, aponta que o sofrimento psicológico é intensificado pela forte cobrança por metas e pelo uso de plataformas digitais de controle.

Burocracia, plataformas digitais e insegurança contratual

O malestar docente também é agravado por exigências burocráticas e alterações administrativas recentes na rede estadual de ensino. Educadores criticam o uso intensivo de ferramentas de monitoramento de desempenho e indicadores de gestão — como o sistema “Farol do Desempenho” na Secretaria Escolar Digital —, que geram um clima de cobrança constante por resultados muitas vezes desconectados da realidade estrutural das escolas.

A isso se soma a apreensão gerada por novas diretrizes contratuais, a exemplo da Resolução SEDUC nº 08/2026, apontada por entidades sindicais como um fator que impõe regras mais rígidas e precariza a permanência de professores temporários (Categoria “O”) que necessitam se afastar por motivos de saúde. Na rede particular, a insegurança trabalhista se manifesta na constante pressão pela retenção de alunos e na exigência de flexibilidade extrema, muitas vezes sem a devida retaguarda institucional diante de conflitos.

O posicionamento do governo estadual

Em nota oficial, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc) informou que o número de professores estaduais em licença médica chegou a 16.216 em 2025. A pasta destacou que mantém ações voltadas à saúde mental por meio do programa “Cuidar de Quem Educa”, que já realizou centenas de milhares de teleatendimentos psicológicos e psiquiátricos, e pontuou que atualmente há 8.846 docentes readaptados na rede.

Apesar das iniciativas oficiais, especialistas em saúde mental reforçam que o problema exige uma revisão profunda das condições estruturais de trabalho — abrangendo tanto o setor público quanto o privado —, do acolhimento institucional e da valorização da carreira, alertando que o esgotamento docente compromete não apenas a saúde dos profissionais, mas o próprio futuro da educação.