O Brasil alcançou um novo recorde no número de estudantes matriculados no ensino superior, mas o crescimento do acesso às universidades ainda não se traduz, na mesma proporção, em conclusão dos cursos. Dados do Mapa do Ensino Superior, referentes a 2024, mostram que o país chegou a 10,23 milhões de estudantes de graduação, dos quais 79,8% estão em instituições privadas e 20,2% na rede pública.
O principal desafio agora é garantir que esses estudantes permaneçam nas instituições, tenham condições de aprender e consigam concluir a formação.
A evasão é especialmente elevada entre os estudantes do ensino a distância (EAD). Enquanto 24,8% dos alunos matriculados em cursos presenciais abandonam a graduação antes da conclusão, o índice chega a 41,6% entre aqueles que estudam a distância.
Para Priscila Claro, diretora de Graduação do Insper, o desafio da educação superior mudou. “O desafio brasileiro já não é apenas abrir a porta da universidade”, afirma. É preciso criar condições para que o estudante permaneça e conclua sua formação.

EAD impulsiona expansão, mas também registra maior evasão
A expansão do EAD é um dos principais fatores responsáveis pelo crescimento das matrículas no ensino superior brasileiro. Em 2024, aproximadamente 5,18 milhões de estudantes estavam matriculados em cursos a distância, o equivalente a 50,7% do total. Já o ensino presencial reunia cerca de 5,03 milhões de alunos.
O perfil dos estudantes também ajuda a explicar parte desse cenário. Segundo Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp, mais de 60% dos matriculados no EAD têm mais de 30 anos, enquanto 65% dos estudantes presenciais têm até 24 anos.
Muitos alunos que optam pelo ensino remoto já estão inseridos no mercado de trabalho e procuram uma graduação para melhorar sua qualificação profissional. A flexibilidade, nesse caso, é uma vantagem importante, mas também pode representar um desafio quando o estudante precisa conciliar trabalho, família e estudos.
Além disso, o custo mais baixo em comparação com muitos cursos presenciais torna o EAD uma alternativa para estudantes que não poderiam arcar com despesas de transporte, alimentação ou moradia.
Apesar disso, a modalidade enfrenta dificuldades relacionadas à interação, ao acompanhamento pedagógico e à organização da rotina de estudos.
“O EAD leva ao Ensino Superior quem não chegaria”, avalia Priscila Claro, mas a falta de interação e apoio pode transformar a flexibilidade em isolamento e favorecer a evasão.
Condições financeiras e formação básica também pesam
A evasão, no entanto, não pode ser atribuída apenas à modalidade de ensino. Os especialistas apontam uma combinação de fatores econômicos, acadêmicos e pessoais.
Entre as principais razões estão a perda de renda, dificuldades para pagar mensalidades, necessidade de trabalhar, problemas para conciliar diferentes responsabilidades e até o arrependimento em relação à escolha do curso.
Outro fator importante é a formação recebida antes da universidade.
Rodrigo Capelato destaca que 90% dos estudantes têm renda familiar de até três salários mínimos e que parte deles chega ao ensino superior com dificuldades decorrentes de uma formação básica insuficiente.
Essa defasagem pode tornar mais difícil acompanhar disciplinas e conteúdos da graduação, aumentando o risco de abandono.
Para os especialistas, portanto, combater a evasão exige olhar para toda a trajetória educacional do estudante, desde a educação básica até a universidade.
Menos formandos no ensino presencial
A expansão do EAD também está alterando o perfil do ensino superior brasileiro. Entre 2023 e 2024, as matrículas presenciais caíram 0,5%, enquanto as matrículas a distância cresceram 5,6%. Na última década, o número de estudantes no EAD aumentou 287%.
Essa migração tem reflexos no número de concluintes presenciais.
Em 2024, 729.246 estudantes concluíram cursos presenciais, contra 990.857 em 2018. São mais de 260 mil formandos a menos em seis anos.
Priscila Claro ressalta que a queda não significa necessariamente redução proporcional no número total de profissionais formados, já que parte dos estudantes migrou para a modalidade a distância. Ainda assim, o movimento pode produzir consequências importantes para determinadas áreas profissionais.
Cursos que dependem de laboratórios, clínicas, atividades práticas e infraestrutura específica podem enfrentar dificuldades adicionais quando a formação presencial perde espaço.
Capelato também chama atenção para a redução de jovens formados. Como a maior parte dos estudantes presenciais tem até 24 anos, a diminuição dos concluintes pode representar uma redução na entrada de trabalhadores jovens e qualificados no mercado.
Qualidade da formação também está no centro do debate
O crescimento acelerado do EAD levou o Ministério da Educação (MEC) a promover mudanças na regulamentação da modalidade.
Entre as medidas adotadas está a proibição de cursos de licenciatura oferecidos integralmente a distância, além da criação do novo Enade das Licenciaturas e da Prova Nacional Docente.
De acordo com o MEC, dados do Enade apontam que 73,9% dos concluintes da modalidade presencial atingiram a proficiência, contra 46,9% dos estudantes de EAD.
Para o governo, os números reforçam a necessidade de garantir regulação, presencialidade e infraestrutura adequadas para que a expansão do ensino a distância não comprometa a qualidade da formação.
O ministério também informou que suspendeu a renovação automática do reconhecimento de cursos que obtiveram conceitos 1 e 2 no Enade. Nesses casos, a renovação passa a depender de visita presencial.
Como reduzir a evasão?
Para os especialistas, aumentar o número de vagas é apenas uma parte da política de expansão do ensino superior. O desafio é construir condições para que os estudantes consigam permanecer.
Uma das estratégias passa pela aproximação entre universidades e escolas de ensino médio. A ideia é ajudar os estudantes a conhecer melhor as possibilidades de formação e as diferentes carreiras antes de escolher um curso.
A orientação profissional também aparece como uma ferramenta importante. Segundo Capelato, parte das desistências está relacionada ao desconhecimento sobre a carreira escolhida.
O contato com o mercado de trabalho e com atividades práticas pode ajudar o estudante a compreender melhor a profissão e avaliar se aquela graduação corresponde às suas expectativas.
Outro ponto fundamental é a assistência estudantil. Bolsas, auxílio para alimentação e moradia, acompanhamento acadêmico e apoio aos estudantes podem fazer diferença para aqueles que enfrentam dificuldades financeiras.
Para Priscila Claro, o combate à evasão não deve significar diminuir as exigências acadêmicas. “Reter não significa reduzir as exigências”, afirma. Significa oferecer condições para que o estudante consiga aprender e concluir o curso.
Permanência é o próximo desafio
O crescimento para 10,23 milhões de matrículas mostra que o acesso ao ensino superior brasileiro avançou. Mas os índices de evasão revelam que abrir as portas das universidades não é suficiente.
O desafio agora é transformar matrícula em formação, diploma e qualificação profissional.
O MEC informou que o orçamento da assistência estudantil passou de R$ 1,2 bilhão em 2022 para R$ 2,1 bilhões em 2026, um crescimento de 75%. O governo também afirma ter ampliado as bolsas permanência destinadas a estudantes indígenas e quilombolas de 8,6 mil para 17,5 mil em 2026, além de elevar o valor das bolsas de R$ 900 para R$ 1,4 mil.
Na infraestrutura, o governo informa investimentos de R$ 3,9 bilhões até 2027, por meio do Novo PAC, para a criação de dez novos campi e a realização de 421 obras em universidades federais.
Os números mostram que a expansão continua, mas também deixam uma questão central para o futuro da educação brasileira: como garantir que mais estudantes não apenas ingressem na universidade, mas tenham condições de permanecer, aprender e se formar?
Para os especialistas, a resposta passa por uma combinação de qualidade na educação básica, orientação profissional, acompanhamento acadêmico, assistência estudantil, aproximação com o mercado de trabalho e modelos de ensino capazes de conciliar flexibilidade com interação e acompanhamento pedagógico.
Fonte: Estadão
