Apesar de o Brasil manter índices elevados de escolarização entre crianças de 6 a 14 anos, a permanência dos estudantes no ensino médio ainda está abaixo das metas previstas pelo Plano Nacional de Educação (PNE). Especialistas apontam que fatores como a entrada precoce no mercado de trabalho e o desinteresse pelos estudos estão entre os principais obstáculos para a conclusão da educação básica.
Os dados mais recentes mostram que 99,5% das crianças de 6 a 14 anos estavam escolarizadas em 2024. Já entre os jovens de 15 a 17 anos, o índice cai para 93,4%, abaixo do previsto pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Além disso, apenas 80,6% dos estudantes dessa faixa etária frequentavam ou já haviam concluído o ensino médio, percentual inferior à meta de 85% estabelecida pelo PNE.
Mercado de trabalho influencia permanência na escola
Para especialistas, a realidade socioeconômica ainda pesa na decisão de muitos adolescentes de interromper os estudos.
Segundo a professora Sílvia Colello, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), muitos jovens ingressam precocemente no mercado de trabalho, muitas vezes em atividades informais, para complementar a renda familiar. Essa necessidade acaba afastando parte dos estudantes da escola antes da conclusão da educação básica.
Além da questão econômica, ela destaca que muitos adolescentes têm dificuldade para enxergar sentido no conteúdo oferecido pelas escolas e não conseguem relacionar o aprendizado ao próprio projeto de vida.

Escola precisa dialogar com as novas gerações
Outro desafio apontado pelos especialistas é aproximar a escola da realidade dos estudantes.
Para Sílvia Colello, o modelo tradicional de ensino, baseado principalmente na transmissão de conteúdos, precisa evoluir para metodologias que estimulem a participação ativa dos alunos, a criatividade, a pesquisa e a resolução de problemas.
Ela defende que atividades culturais, esportivas, científicas e projetos colaborativos podem tornar o ambiente escolar mais atrativo, fortalecendo o vínculo dos estudantes com a escola e contribuindo para reduzir a evasão.
Novo Ensino Médio ainda gera debates
Os especialistas também analisam os efeitos do Novo Ensino Médio, cuja implementação ainda está em fase de consolidação.
O pesquisador Mozart Ramos, do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto, avalia que ainda é cedo para medir os impactos definitivos da reforma. Segundo ele, houve crescimento no número de jovens que frequentam a série adequada para a idade em comparação ao período anterior à pandemia, mas os resultados ainda permanecem abaixo das metas nacionais.
Por outro lado, há avaliações de que as mudanças no modelo curricular trouxeram dúvidas para parte dos estudantes, que ainda enfrentam dificuldades para compreender a nova organização do ensino médio.
Desigualdades continuam presentes
Os dados também evidenciam diferenças importantes entre os estudantes brasileiros.
Enquanto 84,9% dos jovens brancos de 15 a 17 anos frequentam ou concluíram o ensino médio, esse percentual é de 77,8% entre estudantes pretos e pardos, demonstrando que as desigualdades sociais e raciais continuam influenciando a permanência na escola.
Esses números reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas tanto para a garantia do acesso quanto para a permanência dos estudantes na educação básica.
Tecnologia e valorização docente estão entre os desafios
Para os pesquisadores, preparar a escola para os desafios do século XXI passa pela valorização dos professores e pelo uso qualificado das novas tecnologias.
A inteligência artificial, os recursos digitais e as novas formas de comunicação podem ampliar as possibilidades de aprendizagem quando utilizados como ferramentas para estimular o pensamento crítico, a criatividade e o trabalho colaborativo.
Mais do que incorporar tecnologia, o desafio é construir uma escola capaz de dialogar com as expectativas dos jovens, tornando a aprendizagem mais significativa e contribuindo para reduzir a evasão escolar.
Educação mais conectada com a realidade dos estudantes
Os dados mostram que ampliar o acesso à escola já não é o único desafio da educação brasileira. Garantir que os jovens permaneçam estudando e concluam a educação básica exige uma combinação de políticas públicas, valorização da carreira docente e práticas pedagógicas alinhadas às transformações da sociedade.
Para professores e gestores escolares, o debate reforça a importância de tornar a escola um espaço de formação integral, capaz de desenvolver competências acadêmicas, sociais e emocionais, preparando os estudantes para os desafios do mundo contemporâneo.
