Uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) analisa os impactos da implementação do programa Inova Educação na rede estadual paulista e levanta reflexões sobre as mudanças promovidas no currículo do Ensino Médio nos últimos anos. O estudo investiga como a reforma alterou a organização das disciplinas e quais foram os reflexos para estudantes, professores e para a própria escola pública.
A dissertação de mestrado, posteriormente transformada em livro, foi desenvolvida pelo pedagogo Felipe Alencar, sob orientação da professora Carmen Silvia Vidigal Moraes. A pesquisa foi realizada entre 2020 e 2023 e deu origem à obra Escolas que resistem: a educação pública contra o autoritarismo empresarial.
Pesquisa questiona mudanças promovidas pelo Inova Educação
Segundo o pesquisador, o programa Inova Educação, implantado em 2019 pelo Governo do Estado de São Paulo, introduziu novas disciplinas, como Projeto de Vida, Tecnologia e Eletivas, ao mesmo tempo em que reduziu o espaço destinado a componentes tradicionais da formação geral, como Sociologia, Literatura e Ciências.
O estudo sustenta que a reforma priorizou competências voltadas ao empreendedorismo e ao desenvolvimento de habilidades comportamentais, aproximando parte do currículo das demandas imediatas do mercado de trabalho.
A pesquisa também aponta que o processo de construção da política pública ocorreu com pouca participação de universidades, pesquisadores e profissionais da educação.
Formação para o mercado de trabalho gera debate
Um dos principais pontos discutidos pelo estudo é o papel da escola na formação dos estudantes.
Para o autor da pesquisa, as mudanças curriculares acompanharam transformações do mercado de trabalho brasileiro, marcado pelo crescimento da informalidade e pela expansão de formas mais flexíveis de contratação.
Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que uma parcela significativa dos jovens trabalha em condições informais, realidade que, segundo a pesquisa, influencia o debate sobre a função do Ensino Médio e sua relação com a formação profissional.

Falta de professores marcou implementação da reforma
Outro aspecto destacado pelo levantamento foi a dificuldade de implantação das novas disciplinas.
Segundo a pesquisa, a reorganização curricular encontrou obstáculos relacionados à disponibilidade de professores habilitados para ministrar alguns dos novos componentes curriculares, contribuindo para a existência de milhares de aulas sem docentes durante o período inicial de implementação da reforma.
O estudo aponta que esse cenário evidenciou desafios administrativos e pedagógicos enfrentados pelas escolas estaduais durante a adaptação ao novo modelo.
Novas diretrizes ampliaram novamente a formação geral
Desde a realização da pesquisa, o Ensino Médio passou por novas mudanças.
Com a revisão das Diretrizes Nacionais do Ensino Médio e a atualização da legislação paulista, disciplinas como Filosofia, Sociologia, Literatura e Ciências voltaram a ocupar maior espaço na Formação Geral Básica.
As normas atualmente em vigor também estabeleceram a oferta de itinerários formativos organizados por áreas do conhecimento e ampliaram a carga horária de Língua Portuguesa e Matemática em determinadas etapas da educação básica.
Além disso, foram definidos critérios mais específicos para a atribuição de aulas em componentes complementares e regulamentada a utilização de atividades mediadas por tecnologia no Ensino Médio noturno.
Debate sobre o futuro da escola continua
A pesquisa da USP contribui para um debate que permanece presente na educação brasileira: como equilibrar a formação acadêmica, a preparação para o mundo do trabalho e o desenvolvimento integral dos estudantes.
As sucessivas alterações no Ensino Médio demonstram que o tema continua em construção e exige diálogo permanente entre professores, gestores, pesquisadores, estudantes e formuladores de políticas públicas.
Para os profissionais da educação, compreender os impactos dessas mudanças é fundamental para avaliar os rumos da escola pública e buscar um modelo que combine qualidade do ensino, equidade e preparação dos jovens para os desafios da sociedade contemporânea.
