Cada vez menos jovens querem ser professores – e o alerta não pode mais ser ignorado

Nos últimos anos, a docência vem enfrentando um fenômeno silencioso, mas profundo: o desinteresse crescente dos jovens pela carreira. Um novo estudo do Instituto Semesp, amplamente debatido entre especialistas, traz números que deveriam mobilizar todos nós que atuamos dentro da escola ou em defesa da educação pública. Se nada mudar, o Brasil pode enfrentar um déficit de 235 mil professores até 2040, do fundamental ao médio.

O dado, por si só, já aciona um alarme. Mas o estudo revela muito mais.

Um declínio acelerado entre os mais jovens

Em apenas uma década, a presença de professores com até 24 anos em sala de aula caiu 50%. Isso significa que a escola brasileira está recebendo menos talentos jovens e renovadores — justamente o grupo que, historicamente, oxigena a prática pedagógica.

E o desinteresse começa cedo: só 2,4% dos estudantes que prestam o Enem dizem querer ser professores, um terço do número registrado em 2010.

Para Natália Fregonesi, do Todos pela Educação, o problema não se resume ao salário — embora ele seja parte importante da equação. “A questão central é que a carreira não é atrativa”, afirma. E isso já se reflete especialmente nas áreas de Exatas, onde a escassez é crescente.

Por que a carreira deixou de atrair?

Mesmo escolas particulares, que têm mais recursos para formação e retenção, enfrentam dificuldades. Instituições como a Escola Eleva, que investem pesado em formação continuada e valorização do corpo docente, já perceberam que nenhuma estratégia isolada é suficiente.

O panorama internacional reforça esse diagnóstico. Países como Coreia do Sul, Finlândia e Estônia — referências globais — valorizam a formação prática, oferecem possibilidades reais de crescimento na carreira e ampliam o prestígio social da docência. Lá, jovens disputam vagas em cursos de licenciatura. Aqui, muitos pensam duas vezes antes de entrar — e, muitas vezes, desistem antes de concluir.

As condições de trabalho pesam — e muito

A realidade escolar brasileira impacta diretamente a decisão dos futuros professores. Um relatório da OCDE mostra que:

  • 50% dos docentes no Brasil lidam frequentemente com indisciplina em sala de aula (em países como China e Japão, esse índice é de 5%).
  • 47% já sofreram intimidação ou agressão verbal — algo que afeta não só a prática pedagógica, mas a saúde mental.

Não à toa, muitos licenciandos relatam choque ao entrar nas escolas pela primeira vez. “A rotina escolar é muito diferente do que sonhavam”, explica Daniel Cara, da Faculdade de Educação da USP. A frustração tem levado alguns estudantes a abandonar a ideia de lecionar antes mesmo do diploma — como ocorreu com a atriz Julia Bontempo, que relata ter estagiado em escolas sem infraestrutura básica e sem tempo para desenvolver atividades.

Soluções começam a surgir — mas ainda são tímidas

Diante da queda nas matrículas de licenciatura, o governo federal criou a bolsa do programa Mais Professores para o Brasil, destinada a jovens de baixa renda com bom desempenho escolar. Em 2025, as matrículas cresceram 60% nas instituições públicas — um sinal positivo, mas que ainda não resolve o problema estrutural.

Algumas escolas privadas têm buscado incentivar seus próprios estudantes a se tornarem professores no futuro, como faz o Colégio São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, a pressão e as condições de trabalho seguem afastando muitos jovens.

O que está em jogo: o futuro da educação brasileira

Criar condições para que a juventude escolha — e permaneça — na docência é um desafio urgente. O Brasil ainda convive com lacunas profundas de aprendizagem, e precisa de professores bem formados para enfrentar os problemas complexos deste século.

Não há solução mágica. Mas há um caminho claro:

  • formar professores com prática consistente;
  • melhorar salários e condições de trabalho;
  • construir um ambiente escolar seguro e respeitoso;
  • oferecer possibilidades reais de crescimento profissional;
  • devolver à carreira o prestígio que ela já teve — e que merece.

Enquanto isso, histórias como a da professora Maria Eduarda Avellar, 24 anos, apaixonada pela troca com os alunos e já engajada em uma segunda graduação para ampliar sua atuação, mostram que a vocação ainda existe — mas precisa ser cultivada.

Como lembrava Immanuel Kant: “O ser humano é aquilo que a educação faz dele.”
E nada disso é possível sem professores que escolham — e queiram permanecer — na sala de aula.