Os resultados mais recentes do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) colocaram o ensino superior brasileiro, especialmente o setor privado, no centro de um debate urgente sobre qualidade acadêmica, expansão desordenada e condições reais de formação profissional.
Segundo dados divulgados pelo Inep, cerca de 30% dos cursos de Medicina avaliados obtiveram conceitos considerados insatisfatórios (notas 1 e 2). Ao todo, mais de 100 cursos serão alvo de sanções que incluem redução ou suspensão de vagas, veto à abertura de novos ingressos e restrições ao Fies e a outros programas federais.
Para quem atua no dia a dia das instituições particulares, os números não são apenas estatísticas: eles dialogam diretamente com infraestrutura insuficiente, sobrecarga docente, precarização do trabalho acadêmico e pressão mercadológica por expansão de vagas.

O QUE O ENAMED AVALIA (E O QUE ELE REVELA)
O Enamed é uma avaliação anual que mede tanto o desempenho dos estudantes quanto aspectos estruturais e pedagógicos dos cursos de Medicina. Em 2024, 351 cursos foram avaliados, com a participação de cerca de 89 mil estudantes, entre concluintes e alunos de outros semestres.
Um dado especialmente preocupante: entre os 39 mil estudantes concluintes, apenas 67% atingiram o nível considerado proficiente. Isso significa que quase 13 mil futuros médicos não demonstraram domínio adequado dos conhecimentos esperados para o exercício profissional.
Para professores, esse resultado levanta uma questão central: quais condições reais estão sendo oferecidas para ensinar, e para aprender, medicina no Brasil?
O PESO DO MODELO DE EXPANSÃO NO ENSINO PRIVADO
A análise por tipo de instituição revela diferenças significativas. Enquanto universidades públicas federais e estaduais concentram os melhores desempenhos, as instituições privadas com fins lucrativos apresentaram resultados preocupantes, com 58,4% dos cursos nas faixas 1 e 2.
Esse cenário não surge do acaso. Nos últimos anos, a abertura acelerada de cursos de Medicina no setor privado muitas vezes ocorreu sem a contrapartida necessária em hospitais-escola, campos de estágio, laboratórios adequados e equipes docentes estáveis.
Para o professor da instituição particular, isso frequentemente se traduz em:
- Turmas numerosas;
- Carga horária fragmentada;
- Contratos precários;
- Pressão por resultados sem investimento proporcional;
- Pouca autonomia pedagógica diante de interesses administrativos.
O resultado aparece nas avaliações externas e, mais grave, na formação dos profissionais que chegarão ao sistema de saúde.
SANÇÕES: PUNIÇÃO OU OPORTUNIDADE DE CORREÇÃO?
As sanções anunciadas pelo MEC variam conforme o desempenho:
- Cursos com conceito 1 terão suspensão total de novos ingressos;
- Cursos com conceito 2 sofrerão redução de vagas;
- Além disso, há a suspensão do Fies e de outros programas federais.
O ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que as instituições terão prazo para apresentar defesa e que o objetivo das medidas é corrigir rumos e garantir a qualidade do ensino, não apenas punir.
Do ponto de vista docente, porém, é fundamental que essas correções não recaiam exclusivamente sobre professores e estudantes, como costuma acontecer, mas envolvam:
- Reestruturação curricular real;
- Investimento em infraestrutura;
- Valorização do trabalho docente;
- Planejamento acadêmico de longo prazo.
O PAPEL DOS PROFESSORES DIANTE DESSE CENÁRIO
Para os professores das instituições particulares, o Enamed também funciona como um instrumento de visibilidade. Ele expõe problemas que muitas vezes já são conhecidos internamente, mas pouco enfrentados pelas mantenedoras.
Mais do que rankings, a avaliação coloca em pauta perguntas essenciais:
- É possível garantir formação médica de qualidade sem investimento contínuo?
- Como sustentar excelência acadêmica em um modelo orientado pelo lucro?
- Qual o limite da expansão quando faltam condições pedagógicas mínimas?
Essas são discussões que dizem respeito não apenas à gestão, mas à responsabilidade social da educação superior, e ao papel do professor como agente central desse processo.
QUALIDADE DE ENSINO NÃO SE FAZ SEM VALORIZAR QUEM ENSINA
Os resultados do Enamed deixam claro que avaliar é necessário, mas avaliar sem enfrentar as causas estruturais do problema é insuficiente.
Para as instituições privadas, o desafio é claro: não basta abrir cursos e ampliar vagas é preciso garantir condições reais de ensino, trabalho digno para os docentes e formação sólida para os estudantes.
Caso contrário, as sanções tendem a se repetir, os conflitos internos a se intensificar e a educação superior a seguir refém de um modelo que prioriza quantidade em detrimento da qualidade.


