95 afastamentos por dia: o que os dados sobre saúde mensal revelam sobre a realidade docente em SP

A saúde mental dos professores da rede estadual de São Paulo voltou ao centro do debate após a divulgação de um levantamento do Centro do Professorado Paulista (CPP). Com base em dados oficiais obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), a entidade mostra um cenário que muitos educadores já sentem na prática: o adoecimento emocional virou rotina na profissão.

Entre janeiro e setembro deste ano, o governo paulista concedeu uma média de 95 licenças médicas por dia relacionadas a transtornos mentais e comportamentais entre professores efetivos e estatutários. Ao todo, foram 25.699 licenças, somando 911.634 dias de afastamento — o equivalente a mais de 2.400 anos de trabalho perdidos apenas nesse período.

O que os números mostram

  • Em 2024 inteiro, foram registradas 42.155 licenças por motivos de saúde mental.
  • Somadas, essas licenças resultaram em 1.344.442 dias de afastamento, com média de 31 dias por professor.
  • A região da Grande São Paulo lidera o número de licenças em 2025, com 13.534 afastamentos.
  • Em seguida, vem a região de Campinas, com 3.356.
  • Os dados não incluem professores temporários — o que significa que o quadro real pode ser ainda mais grave.

Para o CPP, os números confirmam uma pressão emocional crescente sobre os profissionais. “Esses números são um grito de alerta. O professor está adoecendo a cada dia”, afirmou o diretor-geral da entidade, Alessandro Soares.

O que diz a Secretaria da Educação

Em nota, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) reconheceu os desafios contemporâneos da profissão, citando:

  • as mudanças pós-pandemia,
  • a incorporação de novas tecnologias,
  • as novas demandas pedagógicas e sociais dentro da escola.

A Pasta também afirma ter ampliado suas políticas de acolhimento e prevenção. Um dos exemplos citados é o serviço de teleatendimento em psicologia e psiquiatria, oferecido pela Coordenadoria de Gestão de Recursos Humanos (CGRH) desde 2024, que contabiliza mais de 650 mil atendimentos até outubro deste ano.

Por que este debate importa tanto para quem está na sala de aula

Se para muitos esses números são alarmantes, para os professores eles são, na verdade, um retrato estatístico do cotidiano. Salas superlotadas, violência escolar, desvalorização da carreira, cobrança por resultados, burocracias crescentes e sobrecarga emocional formam um ambiente que desgasta, adoece e empurra profissionais para licenças que muitas vezes poderiam ser evitadas.

Mais do que apontar responsabilidades, o levantamento abre espaço para um debate urgente: quais políticas públicas são necessárias para garantir condições de trabalho dignas e sustentáveis para quem educa?

E, dentro das escolas, como fortalecer redes de apoio, práticas de cuidado e estratégias que aliviem a pressão sobre cada educador?

O tema é complexo — mas ignorá-lo já mostrou custos demais.

Se você é professor e se identifica com esse cenário, sua experiência não é individual: ela faz parte de um fenômeno estrutural que está, finalmente, começando a ganhar visibilidade.